: - Ali está
sua septã - mas Sansa nem se teria apercebido de que se
tratava de uma mulher. O maxilar apodrecera e caíra, e
as aves tinham comido uma orelha e a maior parte de
uma bochecha.
Sansa se perguntara o que teria acontecido a Septã
Mordane, embora agora lhe parecesse que sempre o
soubera.
- Por que foi morta? - perguntou. - Jurara perante os
deuses...
- Era uma traidora - Joffrey parecia mal-humorado. De
algum modo, Sansa o estava aborrecendo. - Não disse o
que pretende me dar pelo dia do meu nome. Em vez
disso, talvez deva ser eu a lhe dar algo, gostaria?
- Se lhe agradar, senhor - disse Sansa,
Quando ele sorriu, Sansa compreendeu que caçoava dela.
- Seu irmão também é um traidor, compreende? - voltou
a virar a cabeça de Septã Mordane ao contrário. -
Lembro-me do seu irmão de Winterfell. Meu cão o
chamou de senhor da espada de madeira. Não é verdade,
cão?
- Chamei? - respondeu Cão de Caça. - Não me lembro.
Joffrey deu petulantemente de ombros.
- Seu irmão derrotou meu tio Jaime. Minha mãe diz que
foi por traição e engano. Chorou quando ouviu a notícia.
As mulheres são todas fracas, até ela, embora finja que
não é. Diz que temos de ficar em Porto Real para o caso
de meus outros tios atacarem, mas eu não me importo.
Depois do banquete do dia do meu nome, vou reunir uma
tropa e matarei eu mesmo seu irmão. Será isso que lhe
darei, Senhora Sansa. A cabeça de seu irmão.
Uma espécie de loucura tomou conta de Sansa naquele
instante, e ouviu-se a dizer:
- Talvez meu irmão me dê a vossa cabeça..
Joffrey fez uma carranca.
- Nunca deve zombar de mim dessa maneira. Uma esposa
fiel não zomba de seu senhor. Sor Meryn, ensine-lhe.
Daquela vez, o cavaleiro a agarrou pelo queixo e
manteve sua cabeça imóvel enquanto lhe batia. Bateu-
lhe duas vezes, da esquerda para a direita e, com mais
força, da direita para a esquerda. O lábio de Sansa abriu-
se e correu-lhe sangue pelo queixo, misturando-se com o
sal de suas lágrimas.
- Não devia passar o tempo todo chorando - disse-lhe
Joffrey. - É mais bela ao sorrir.
Sansa obrigou-se a sorrir, com medo de que ele pudesse
dizer a Sor Meryn para que batesse de novo se não o
fizesse, mas não bastou, o rei ainda balançou a cabeça.
- Limpe o sangue, está toda descomposta.
O parapeito exterior chegava-lhe ao peito, mas ao longo
da borda interna do caminho não havia nada, nada, a
não ser um longo mergulho até o chão, vinte ou vinte e
cinco metros mais abaixo. Bastaria um empurrão, disse a
si mesma. Ele estava mesmo ali, bem ali, sorrindo-lhe
afetadamente com aqueles lábios que eram como vermes
gordos. Podia fazê-lo. Podia. Faça-o agora mesmo,
Nem importaria se caísse com ele. Não importaria nem
um bocadinho.
- Vem cá, menina - Sandor Clegane ajoelhou à sua frente,
entre ela e Joffrey. Com uma delicadeza surpreendente
para um homem tão grande, limpou o sangue que lhe
escorria do lábio aberto.
O momento passara. Sansa baixou os olhos.
- Obrigada - disse quando ele acabou. Era uma boa
menina, e lembrava-se sempre da boa educação.

Daenerys

Asas ensombraram seus sonhos febris.
- Você não quer acordar o dragão, não é?
Caminhava por um longo corredor sob grandes arcos de
pedra. Não devia olhar para trás, não podia olhar para
trás. A frente havia uma porta, minúscula na distância,
mas mesmo de longe viu que estava pintada de
vermelho. Caminhou mais depressa, e seus pés nus
deixaram pegadas sangrentas na pedra.
- Você não quer acordar o dragão, quer?
Viu a luz do sol no mar dothraki, na planície viva, rica
com os odores da terra e da morte. O vento agitava o
capim, que ondulava como água. Drogo a envolvia em
braços fortes, e a mão dele afagou-lhe o sexo e o abriu, e
acordou aquela doce umidade que era só dele, e as
estrelas lhes sorriram, estrelas num céu diurno. "Casa",
ela sussurrou quando ele a penetrou e a encheu com o seu
sêmen, mas de súbito as estrelas desapareceram, e as
grandes asas varreram o céu azul e o mundo pegou fogo.
- ... não quer acordar o dragão, quer?
O rosto de Sor Jorah estava contraído e desgostoso.
"Rhaegar foi o último dragão", disse-lhe. Aquecia suas
mãos translúcidas num braseiro brilhante onde ovos de
pedra cintilavam, vermelhos como carvões. Num
momento estava ali, e no seguinte desvanecia-se, sem cor
na pele, menos sólido que o vento. "O último dragão",
sussurrou, em um frágil fio de voz, e desapareceu. Dany
sentiu a escuridão atrás de si, e a porta vermelha parecia
mais longínqua que nunca.
- ... não quer acordar o dragão, quer?
Viserys estava à sua frente, gritando. "O dragão não
pede, puta. Você não dá ordens ao dragão. Eu sou o
dragão e serei coroado." O ouro derretido escorria-lhe
pelo rosto como cera, abrindo profundos canais em sua
carne."Eu sou o dragão e serei coroado!" guinchou, e seus
dedos saltaram como serpentes, apertando-lhe os
mamilos, beliscando, torcendo, mesmo depois de os olhos
estourarem e escorrerem como gelatina por bochechas
secas e enegrecidas.
- ... não quer acordar o dragão...
A porta vermelha estava tão longe à sua frente, e Dany
se